segunda-feira, 18 de junho de 2012



Um trato com meu coração

"Nos outros eu sei onde se abriga o coração, é no peito; 
em mim a anatomia ficou toda louca,
 
eu sou todo coração"
(Maiakóvski)

Quando li a passagem supracitada, senti que era para mim. Queria saber achar alguma racionalidade em mim, mesmo que pouca, mas sou, precisamente, toda coração, aí ele se sente o poderoso (e na realidade é), capaz de dirigir cada atitude minha, cada ideia... Mas tenho dialogado bastante com ele nestes últimos dias e estamos entrando num trato: pelo menos por trinta dias ele vai se fingir de morto, até que eu remova a sujeira de cada extensão dele. Já deixei uns sete litros de cândida aqui, separados. Acredito ser o suficiente. Após isso, sim, o coração pode voltar a exercer suas funções e a me dirigir, toda. Mas dantes... não! Nada de sentir! Parado aí! Em estado de inconsciência! Morto! Neste instante é a minha vez de ter você na minha mão e não o contrário. A ação limpeza já iniciou! Apenas não sei em que momento acaba! Mas só de iniciar já me encontro feliz da vida! Mesmo isso, há uns dias, parecia um pouco improvável.

Tatiane Gorska
Mergulhando no escrito de Cora Coralina

“Desistir? Eu já pensei seriamente nisso, mas nunca me levei realmente a sério. É que tem mais chão nos meus olhos do que cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus passos do que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça.”

É, eu não desisti nem desisto de SER FELIZ, mesmo que eu tenha que prosseguir por caminhos incertos e meio ameaçadores para atingir a outra margem. Eu alcançarei! Tenho fé em Deus!

Tatiane Gorska
Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado, 
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. 
Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo. 

(Cecília Meireles)

sábado, 16 de junho de 2012

Reticências...

Vontade de falar muita coisa... Vontade de falar coisa nenhuma... Ahhh, que poder amplo e libertador esse das reticências... em que tudo (não) está contido nelas...

"As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho." (Mário Quintana)

Tatiane Gorska



"Eu acho que não sei fechar ciclos, colocar pontos finais. Comigo são sempre vírgulas, aspas, reticências. Eu vou gostando, eu vou cuidando, eu vou desculpando, eu vou superando, eu vou compreendendo, eu vou relevando, eu vou... e continuo indo, assim, desse jeito, virar páginas, sem colocar pontos. E vou dando muito de mim, e aceitando o pouquinho que os outros têm para me dar..."
(Caio Fernando Abreu)

quinta-feira, 31 de maio de 2012


Sou chamada de paz

Sou o sonho de vários, a realidade de poucos e a solução para todos.
Para acontecer, necessito de cada um, da transformação de consciência, do desejo de ser alcançada e das tuas ações em frente à vida.
Acima de qualquer coisa, o planeta necessita de mim. Nem o dinheiro, o poder, a beleza e o contentamento não são o bastante a quem não me achar.
Filha da liberdade... irmã do amor... resolvo os problemas, tranquilizo o sofrimento.
Proporciono a felicidade, a serenidade, o contentamento de um coração sem maldade; bem-estar, equilíbrio, tranquilidade – consolo para teu coração.
Agora que já me apresentei, solicito que me recebas, me abrigues, me honres. Permita-me ser teu guia, preencher-te de felicidade, adornar todo teu dia.
Aqui no teu país sou chamada de PAZ, mas acredito ser um pouco mais... deves abrir teu coração, para que eu tenha possibilidade de habitá-lo, bem no fundo... eis a melhor solução – quem sabe a única – para reparar teu mundo.

Tatiane Gorska



Sublime enigma

Viver. Será uma imutável procura? Complicações, precipícios, (des)encontros. A busca, a sede, a angústia de descobrir, de ser descoberta também. Abrir as portas da alma para o universo e experimentar de tudo. Sentir o ar, a chuva e o sol, a vegetação, a areia, o sangue em seu pulsar incessante e ter repleta consciência de existir no presente, incluir a vida. Render-se ao enigma da incerteza do que há de chegar. Das questões desprovidas de respostas instantâneas, e das impossíveis mesmo de responder. A única realidade é que fui. Sou. Serei? No agora, apenas estou sendo; mesmo que não possa explicar ao certo quem, como, por qual motivo, em que ponto. Para que lugar? Viajante-prisioneira da nave circular, gigante para mim, insignificante na presença do mundo. Qual o objetivo? “Tudo dirige-se para o bem”. Mas o conceito de bem varia na multidivergência de pensamentos, opiniões, avaliações. Então, questiono de novo; qual o objetivo? Amor, poder, prazer, boniteza, harmonia, felicidade, missão cumprida (missão comprida)?
Viver. Só é possível sem procurar explicar. Devemos confessar nossa incapacidade de um esclarecimento verdadeiro ou ao menos persuasivo – resposta correta, precisa, plena. Esquecer a sequência de perguntas e fazer bom uso do minuto que está a passar, e nunca retornará. Olhos vendados para o futuro. A única saída é ter confiança na vida.

Tatiane Gorska


Interrogação

Sou o que acho
Ou o que acham que sou?
Ponho em prática porque desejo
Ou porque alguma pessoa indicou?
Se minha existência é de minha responsabilidade,
Se a morte é mesmo o final,
Ou se há eternidade,
Como terei conhecimento,
Em que momento saberei a verdade?
*
O que há no meio do planeta?
O que é mundo? O que é o oceano?
Desprovido de ar, como respirar?
Mas porque não tenho possibilidade de contemplar,
Sequer tocar?
*
O que será fé? Um engano,
Pra tornar mais forte a alma?
É melhor ter razão,
Ou manter-se nas asas da emoção?
Tocar delicadamente as nuvens,
Ou submergir os pés no chão?
*
O que é saudade, um sofrimento
Que vem impetuosa e irrefletidamente?
Por que motivo a solidão é gélida
E a paixão é tão cálida?
Por qual razão quem queremos por perto
Mora sempre distante da gente?
*
Dinheiro, será tudo?
Será que compra a felicidade,
Ou aquele amor de verdade,
Ou a vida eterna tão imaginada,
O sorriso da pessoa amada
Será que dinheiro... é nada?
*
É necessário ter atitude
Ou renunciar sem tentar?
Melhor ser uma sombra,
Ou um astro a irradiar?
*
E o sonho, que será?
Uma vida encoberta que possuímos?
E não será só sonho
Essa vida que vivenciamos?
*
Se tivesse outra cor,
Outro sexo, outra raça,
Ainda assim seria eu?
Será que aspecto físico
Altera a essência?
E essa essência, que pessoa me cedeu?
*
Porque essa sede sem término,
Essa inquietação
De preencher o vácuo
Do pouco saber,
Do nem um pouco saber?
Porque o que não desejo recordar
É muito mais árduo de esquecer?
*
Por qual motivo recebemos essa vida,
Se um dia deveremos perder?
E a maneira que vivemos,
Tudo que fazemos,
É o que queríamos mesmo fazer?
*
Por qual razão não vivenciar cada dia
Como se fosse o último,
Se realmente pode ser?

Tatiane Gorska

quarta-feira, 30 de maio de 2012


Eu desejei

Ah, eu sempre quis um amor assim, que de tanto, não tivesse possibilidade de estar contido em mim... eu desejei esse gostar exagerado, esse pulsar desordenado, uma tempestade na minha alma. Fui eu que desejei... perder a razão, entornar meus sentidos aos pés de alguém, pôr minha vida em outras mãos... eu desejei ficar assim, de coração alagado... desejar apenas uma pessoa, sem a qual o meu tudo se converteria em coisa nenhuma. Eu desejei voar mais alto, mergulhar mais fundo, ocupar integralmente dentro de mim o oco do universo, o vazio de amor. Desejei curar minha doença, meu sofrimento, minha falta de amor, que torna nula uma vida. Desejei dar saída a minha essência, acrescentar-me, manifestar-me... ter o pôr-do-sol mais idealizado, e ter conhecimento de como apreciar; perceber a sincronia da dança das estrelas, a acuidade da luz estelar... compreender quando o luar e a vida necessitam se tornar novos outra vez. Eu desejei descobrir um tesouro, uma jóia rara, fonte de ouro oculta numa alma designada a mim, que se reservou para o meu amor... amor único, que por mais que procure, nunca será possível explicar... imensurável, que apenas faz aumentar... crescer... ir além do limite de amar... eu desejei acreditar num olhar e fazê-lo minha direção, minha estrela polar. Eu desejei me permitir vivenciar cada instante, sem remorso pelo que fiz ou deixei de fazer. Eu desejei me convencer do quanto é possível ser fiel a minha verdade, a minha concreta identidade, tratando com desprezo o fingimento. Eu desejei pagar o preço por amar desse jeito, e ter tamanha sensibilidade transbordando em meu peito e estampada em meu rosto; desejei provar o sabor, e a acidez de cada lágrima escorrida, carregando consigo a tristeza oculta... que eu escolhi deixar perdida. Eu desejei alucinar com um toque de olhar... de mão... com toda tranquilidade... deixando ofegante a respiração, entorpecendo os sentimentos, despindo a alma, provocando os desejos adormecidos. Desejei me dar o direito de atingir o máximo prazer, estendido a infinitas dimensões, realizado no ponto mais elevado do querer... desejei sentir a energia que irradia da união de corpos cobertos de suor, de lábios e sonhos, de seres amantes, de seres amados. Eu desejei me atirar do abismo, sem nenhum temor; confiar, de modo total, nas asas do amor, amor que verte a vida... que faz o coração sangrar, em cada despedida... mas, que no reencontro, eleva ao firmamento. Eu desejei transpor o véu, ir além do amor comum, me expor, ficar à toa... juntar dois seres em um... Eu desejei muito um refúgio, uma proteção, um porto seguro... alguém para acender minhas luzes, fazer a vida brilhar no momento em que tudo permanecesse obscuro. Eu desejei essa entrega total, seguir um modelo, não me conformar com o superficial, com amores enganosos, breves. Eu desejei essa aflição de lutar com as coisas, com o tempo; de querer parar os relógios nos momentos de encontro, e fazer com que, na distância, as horas parassem de correr, de maneira lenta, e passassem a voar na velocidade da luz, e ao escutar o som que mais me seduz, eu desejei adentrar pelo fio do telefone. Eu desejei passar as noites assim, insone, distante de mim, cativa da saudade, da vontade de entrar novamente no céu, contemplar aquele sorriso que sucede apenas para mim... eu desejei esse amor que reserva um presente, apenas para quem o sente, amor que permite momentos de eternidade... Eu desejei um motivo para ficar feliz mesmo no momento em que tudo parecesse dar errado. Eu desejei me dedicar ao hoje, me despreocupar com o amanhã, esquecer o ontem. Eu desejei esquecer a falta de raciocínio sensato entre o que sinto e o que acho. Desejei esquivar-me da exatidão, da coerência da ciência, da razão; comportar-me de acordo com minha consciência, pisar no meu próprio chão, e ao invés de viver à margem do engano, desejei me libertar das amarras imaginárias, desobedecer qualquer traço de exigência... desejei penetrar no Saara da vida, experimentando debaixo de meus pés cada grão. Eu desejei ser livro aberto, transparecer, suplantar as fobias... desejei revelar meus segredos, exibir meus desejos, crer na felicidade. Eu desejei, sim, saborear todo doce da vida, e também o sal, e todos os condimentos, e o prato principal. Eu desejei essa coisa insensata de procurar marcas, um fio de cabelo, um pelo, uma sobra de perfume na veste... desejei sentir o calor, o frio, a exaltação e o sofrimento... tudo amalgamado; o paradoxo entre certo e errado, profano ou sacro... eu desejei esse amor de temperamento variável, de felicidade condicionada a uma só presença, de modo justo, por ela ser única, e a única que se encaixa, poro a poro, no meu coração, na minha pele toda, nos meus planos. A única que me deu um arco-íris, e que veio envolvida em música, com o peito repleto de flores para serem plantadas em mim. A única que vou amar por toda vida e que me faz realmente querer que esse tempo não tenha final.

Tatiane Gorska

Meia-vida

Uns são espíritos livres, outros já nascem, de modo triste, agrilhoados às regras e obrigações sociais: se existir grito, será abafado; havendo vontades, serão reprimidas; ideias particulares nunca serão tornadas públicas.
Uma vida interna e outra meia-vida externa. Uma fantasia em pleno universo real. Tão triste o ser humano que não vive o que acha! Tão necessitado de si!

Tatiane Gorska


Eu só espio

Hoje eu não derramo lágrimas sequer sorrio
Eu só espio
o romper da madrugada 
Permaneço sem sentimentos, calada, 
imparcial, melancólica.
Sugerem-me cólicas 
Este dia frio. 
Dores doídas e anestesiadas 
Pela ventania cortante
Persistente em minh´alma.

Hoje eu não derramo lágrimas sequer sorrio
Eu só espio
a via pública desguarnecida como eu
Com uma sequência de passos que muito doeu
Desejando livrar-se da agonia 
-- Corrente melancolia --
Que não aparece só na madrugada
Mas que me fica junto, colada 
No decorrer de todo o meu dia.

Tatiane Gorska